quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Saga de uma flor



A garota passeava sobre seus sapatos de laços desamarrados pelo grande jardim, onde as pessoas brotavam, cresciam e se reproduziam como flores. Ela sempre encontrava mães perto dos pântanos segurando suas crianças, via homens cavando a terra com suas raízes violentas e velhos carvalhos contando histórias para as rosas que sentavam à sua volta. Esta pequena menina atendia por Dolores ou Lô, como era chamada por sua mãe. Procurava nesse jardim uma função, ela não sabia se enterrava suas raízes e fazia fotossíntese, como o resto dos moradores dali, ou se partia para plantar suas sementes em outros paraísos. Não entendia como, apesar de todos ali viverem em harmonia, muito felizes e satisfeitos, lhe aconselhavam a partir para longe. O que havia de tão entorpecedor lá fora? O mel das abelhas de lá é mais doce? Há mais sombra e água cor de céu? Dolores olhava para o horizonte todo fim de tarde e olhava o sol se pôr atrás da colina colorida, o que havia lá atras além de um sol guardado? Via-se o clarão subir por detrás da elevação, ela imaginava muitos vaga-lumes dançando o Bolero de Ravel. Vaga-lumes de luz verde, daqueles que moravam dentro do fogão a lenha de sua vó, onde o fogo não queimava, só aquecia. As luzes lhe chamavam, ela ouvia musica sair dali, apesar do vento não soprar muitos ruídos pro lado de cá. A música da colina chamava Lô como uma Iara chama os pescadores pro fundo do mar, não tinha outro modo de ser. Lô arrumou todo seu pólen dentro de suas pétalas e atravessou o portão do seu paraíso, o resto ela ainda não contou a ninguém.

Júlia Carvalho

Quase paradoxal...

Não sinto falta, só aguardo
E te guardo, sem falta.










Júlia Carvalho

Duvidosa, mas conclusão.

Entenda 


Não é revolta
Apena estou te olhando com a mão no queixo
Olhando com os olhos de quem finalmente concluiu
Não vou me desculpar, chega disso!
Tenho todo direito de te olhar levantando uma das sobrancelhas
Criaram-me como ser pensante
E, já depois do deslumbramento, te vejo realmente
Você agora nada mais é que alguém com problemas e uma vida pra cuidar
Você deixa de ser dilema e passar a ser normal
Normal como eu nunca quis que fosse
Eu já temia
Enfim, fica na tua e me olha de igual pra igual
Afinal, assim como você
Tenho problemas e uma vida pra cuidar
Despeço-me para mais tarde reler-te
E de novo
Caçar
Tchau.

Júlia Carvalho.

Colocando piso, perdoando-se.

Forrar o chão de pedrinhas, pedrinhas brilhantes como se a rua fosse minha, inteira minha. E os passos abrigados, registrados e fossilizados no meu tapete de memorias, ficam iluminados. Ilumina-los e torna-los resquícios de vivencias, de carências, de plenitude e o logo após, o sono. Nada de apertar, julgar e algemar o que passou, pode-se lembrar e ninar toda demência, toda a cega paixão. E quando ela dormir coloque-a no berço da lembrança e perdoa toda a ânsia que um dia te atingiu. É, dormiu...

Júlia Carvalho.

Mistério soluçante, melhor, solucionante.

foi como lavar minh'alma
trate-se de algo superior
ou até igual ao amor

olho na brasa

latido provocante a noite
e um mistério rezado e comandado por mim
10 ave marias, respondidas por 10 santa marias

Foi como falar particularmente com alguém

invocar e ser recebida
foi pelo vô e pela vó que orei
mas tudo aquilo curava minha insegurança
respondia ao meu encucamento
dava um tapa na minha imaginação

A fé, a busca, a calma,

é mais que amor
mais que religião
é família.

Júlia Carvalho

O sim e o regredir, ou não.

E finalmente abrira quando "sim" se tornou meu, quando a permissão, agora reconhecida pela mãe, começou a engatinhar
Tinha medo de lhe viciar no bico, poderia deixar meu "senso crítico" frouxo ou no minimo dentuço.
E "sim" gostava do voo, apesar da sua maturidade de galinha via os poleiros como um atraso, por isso ninava-o no pé da cancela. Mas ele fazia o que queria, de qualquer forma criava-o como um passarinho manso.


 Júlia Carvalho