terça-feira, 30 de outubro de 2012

Colocando o piso, perdoando-se.

Forrar o chão de pedrinhas, pedrinhas brilhantes como se a rua fosse minha, inteira minha. E os passos abrigados, registrados e fossilizados no meu tapete de memorias, ficam iluminados. Ilumina-los e torna-los resquícios de vivencias, de carências, de plenitude e o logo após, o sono. Nada de apertar, julgar e algemar o que passou, pode-se lembrar e ninar toda demência, toda a cega paixão. E quando ela dormir coloque-a no berço da lembrança e perdoa toda a ânsia que um dia te atingiu. É, dormiu...

Júlia Carvalho.

sábado, 20 de outubro de 2012

Um dia ainda paro de assistir tv e colocar títulos nos textos

Talvez você tenha sido a primeira pessoa que me instigou de verdade, a primeira que me olhou como alguém que olha, a primeira pessoa, eu. Eu, tentando ser mais eu, primeira pessoa, me vi em ti e quem sabe fingi te pertencer. Mas não, não. O mundo é grande à alguns quilômetros daqui, você bem sabe, vai ver é por isso que não me acolhe. Mas nem preciso, chegou a hora de assumir pro meu ser maltratado que aprendi e entendi que não mais vou me tratar na terceira pessoa. Vou ser mais do meu instinto, no entanto, apertar o cinto e andar segura, constante, olhando as placas. Não preciso sinalizar, blá, basta entrar com segurança, na minha mão, segurando na mão de quem me tem, sem ser refém, de nenhum bichinho de orelha.
ps: nunca te amei, assim como nunca achei que te quisesse. Juro.

Júlia Carvalho

terça-feira, 10 de julho de 2012

Troca


Inventei um pouco de ti dentro de mim. E, egoísta figura, guardei esse teu eu ignorando teu tu de verdade.
Quando tive tu de verdade perto de mim, tu virou marfim e teu eu, só meu, pareceu brita. Esnobei a figura perfeita que criei. Te adotei, te adorei mesmo sabendo que teu eu verdadeiro não seria tão meu quanto o que criei.



Gatos caseiros

Gatos amarelos, brancos, cinzas, alaranjados e pretos. Ah, os pretos! Estão na maioria das vezes reluzentes como carros desprovidos de plotagem. Seus olhos amarelados, realçam o tamanho dos bigode que lhes dão charme, lhes deixam sisudos! Gostam de deitar em coisas pretas, inclusive mochilas! Adoram cadeiras e apostilas. Odeiam tapetes. E não é surpresa abrir armários e dar de cara com um xaninho! Tenho uma mocinha que não aguenta ver a geladeira aberta.
Se lambem como granfinos de smoking e balançam o rabo como espadas polidas. Não tem intenção de ferir, só de se mostrar mesmo. Se espreguiçam meio que esnobes e empurram nossas mãos com o ''cocorute'' ao encontra-las penduradas num cochilo. Acham-se realmente donos da casa e tem, nos humanos, como hospedes e garçons. Basta abrir o armário onde se esconde o pote de ouro (ração) que o interesseiro aparece com a maior cara de gato, dando uma de cavalo do Beto Carreiro, ficando em pé sobre as patas traseiras. Creio que eles não gostam da ração verde, preferem a vermelha, nada vegetarianos, nada saudáveis. Tem também os ''momentos mosca'', o ousado sobe no seu colo, você o tira. Por mais forte que seja o empurrão, ele volta quantas vezes for preciso até monopolizar sua companhia. E vence.
Gatos não são infiéis, são apenas as unhas, não se engane pelo fenótipo. Mas de bestas têm muito pouco, felinos são espertos, são independentes, são donos de sí e de seus próprios donos. São reis imperando com seus casacos de pele.


Júlia Carvalho

Mim e dedos.

Desde não sei quando que tenho mãos grandes, dedos compridos e unhas curtas.
“Homem prefere mãos pequenas’’
“Homens preferem mãos delicadas’’
Mas meu pai sempre gostou das minhas mãos, até mesmo na hora que me mandava estender uma de cada vez pra levar umas palmadas.
Ele é homem.
Sempre me diz que puxei a ele nesse quesito, mãos fortes de quem trabalha, de quem produz.
E sim, eu quero produzir! Nem que pra isso eu tenha que "rancar" as unhas!
Tem outro querido que gosta das minhas mãos como são. Um cara bronzeado, com braços compridos e corpinho, literalmente, violão. Talvez até seja ele o canalha culpado por tudo isso, estiquei muito os dedos para lhe satisfazer, mas eu sempre o amei, e queria lhe fazer falar! Graças a minha persistência hoje ele fala pelos cotovelos, erra às vezes na pronuncia, mas não deixa de dizer o que pensa! Já falei pra ele que, nós dois iremos envelhecer, e nunca vou deixar o cupim chegar nele. Mas certamente, meus dedos irão calejar, minha pele há de ficar fina e sensível, minhas articulações podem até teimar, e consequentemente ele pode passar a falar um pouco menos, mas tive que prometer que meus dedos não diminuirão, promessa é divida, rei.
Júlia Carvalho

Nozes

Nossa conversa inteligente sobrepõe mãos tremulas.
Nossos pensamentos de mão dupla.
O dialogo é automático, palavras imediatas, é só um disfarce.
A malicia sim está consciente.

Júlia Carvalho.

Leia correndo!

Armada estava
Mouse no indicador
Teclado sob mãos duras
Dentes apertados
Olhos afoitos
Nós nos cabelos
Minhas palavras eram perseguidas por um tracinho piscante
Ele me agoniava
Ele me pressionava
- Escreva!
E eu teclei o empurrando, ele sumiu!
Digitei compulsivamente pra não lhe dar a ousadia de reaparecer.
Não podia parar
Parei
Ele apareceu de novo
E ele piscou, piscou, piscou
Finji não vê-lo
Apertei o backspace e o fiz voltar pro inicio
Toma, seu paquerador barato!

encruzilhada

Eu tinha que decidir. Nuca vi dois caminhos tão visivelmente distintos. Eu sabia qual era o mais difícil, o quanto este iria me aflorar fortes sentimentos e o quanto que, de vez em quando, eu ia chorar por ter optado em desafiar o mundo. O outro caminho era composto por desafios comuns, tinha tudo pra ser o escolhido. Mas com amor é mais caro e meu saldo de coragem tinha aumentado tanto nos últimos meses que resolvi torra-lo com estilo. Arrumei minha bagagem interior e botei o pé no temido destino. O medo me encontrou em varias encruzilhadas, mas o arrependimento não agüentou o pique.
Júlia Carvalho.

Duelo

Eu passei parte do meu tempo particular procurando
tuas pupilas em meio a profundeza das tuas gudes de
caramelo. Te encarei tanto, TANTO! Os olhos
conseguem dizer muito, mas os seus passavam de
relance na minha figura espiã que conclusão nenhuma tirava.
Por que teus olhos estavam mudos? Por que insiste
em calá-los pra mim? Nada mais quero a não ser
ouvi-los. Olha os meus, tem tanto conteúdo. Olho no
olho é mesmo intrigante. Olhos podem até se fingir de
mudos mas nunca mentem. Não mentem, omitem.

texto de Júlia Carvalho após um dia quase empolgante.

Provar

Unhas, pareciam serras
Cabelos, cortinas lascadas
Boca, quase nunca via batom
Olhos, no entanto, sempre estavam pintados.
Só que um dia tirei o binóculos do pescoço
Desci o monte e fui ver de perto.
Era diferente, quebrei o binoculo.

Júlia Carvalho